Geopolítica da Fragmentação

GEOPOLÍTICA DA FRAGMENTAÇÃO: A Nova Desordem Mundial e os Impactos nos Projetos Estratégicos de Defesa

Oficial General da Reserva do Exército Brasileiro Rui Yutaka Matsuda

  1. Introdução: O Colapso da Ilusão de Estabilidade - O paradigma da globalização liberal, que pressupunha a convergência econômica como inibidora de conflitos armados, colapsou. A tese do "Fim da História" de Francis Fukuyama, que previa o triunfo universal da democracia liberal, deu lugar, hoje, a uma Nova Desordem Mundial. Caracterizada pela fragmentação do espaço geopolítico, esta era é marcada pelo retorno da competição entre grandes potências (Great Power Competition), o enfraquecimento das instituições multilaterais e a formação de blocos geoeconômicos antagônicos. Neste cenário, a Defesa vem deixando de ser uma política pública de suporte para se tornar o eixo central do planejamento estratégico das nações, exigindo uma reavaliação profunda sobre soberania e autonomia. Quem não o fizer, correrá enorme risco de tutela e subserviência, muito maior que nos “anos dourados” iniciais do mundo prometido por Fukuyma.
  2. A Metástase do Poder: Atores Não Estatais e Grupos Econômicos Um ponto chave para entender a desordem atual é a erosão da autoridade centralizada do Estado. Como bem descreve Moisés Naím, (O Fim do Poder) o poder tornou-se mais fácil de se obter e mais difícil de se usar. Vimos o surgimento de novos núcleos de poder não estatais, como as máfias transnacionais e enormes grupos econômicos (Big Techs), que exercem influência muitas vezes superior à de Estados-nação. • A Máfia-Estado: A fronteira entre o crime organizado e a política externa tornou-se porosa. Grupos criminosos agora fornecem ferramentas de desestabilização, como ataques cibernéticos e financiamento de insurgências, operando "abaixo do limiar" da guerra convencional. • Soberanias Digitais: Corporações que controlam a infraestrutura de dados e comunicações orbitais detêm o poder de alterar o curso de conflitos e influenciar a opinião pública global, desafiando a governança tradicional. O que aconteceria se Elon Musk, de uma hora para a outra, desativasse as células de cobertura da Starlink que atendem a região da Ucrânia? Essa pulverização do poder é o berço da Guerra Híbrida, onde a desinformação, a sabotagem econômica e a pressão sobre infraestruturas críticas substituem ou complementam o confronto direto, paralisando a tomada de decisão do adversário.
  3. O Retorno dos Estados-Civilização e o "Reset" Americano: Enquanto o Ocidente lidava com a diluição do poder, polos como a China e a Rússia centralizaram sua autoridade com base em identidades civilizacionais, desafiando a hegemonia unipolar. A China provou a viabilidade de um capitalismo de Estado tecnologicamente avançado, sem democracia liberal, enquanto a Rússia assumiu o papel de "spoiler" do sistema, utilizando sua expertise em operações híbridas para garantir relevância. Neste tabuleiro estratégico, Donald Trump sinaliza para um reset da ordem mundial em vigor, quebrando a espinha dorsal do modelo globalista e globalizado. Ao perceber que o multilateralismo e o livre mercado irrestrito permitem uma ascensão mais dinâmica de seus competidores que a dos próprios EUA, ele busca um retorno ao nacionalismo econômico. A União Europeia, por exemplo — tradicional aliada que se beneficiou de décadas de globalização econômica —, foi ressignificada na administração Trump, passando a ser vista como uma competidora em potencial. O uso de tarifas como ferramenta de pressão e o questionamento de alianças tradicionais, como a OTAN, aceleram a fragmentação do globo em esferas de influência rivais. Esse cenário consolida o que analistas chamam de 'Mundo G-Zero', um ambiente de vácuo geopolítico onde nenhuma potência detém isoladamente a autoridade para ditar regras universais.
  4. Consequências para a Defesa e a Indústria: O Estado-Fortaleza Para o setor de Defesa, a fragmentação pode significar o fim da "prateleira global". Projetos estratégicos agora devem priorizar a resiliência de suprimentos sobre a eficiência de custos. • Soberania Tecnológica: Em um mundo onde softwares e chips podem ser "desligados" remotamente pelo fornecedor, dominar a camada lógica dos sistemas de armas tornou-se vital. • Dualidade e Escala: A indústria de defesa volta ao modelo de "just-in-case", reativando linhas de produção de massa e integrando tecnologias civis (IA e drones) aos requisitos militares. Surge a figura do Estado-Fortaleza, focado na proteção de nós de conexão, cabos submarinos e infraestrutura digital.
  5. A Encruzilhada Brasileira: A Política de Mesa e a Autonomia Seletiva O Brasil encontra-se em uma posição delicada. O país é dependente do mercado chinês para suas commodities e da tecnologia/doutrina ocidental para sua segurança. Poucos países (EUA, China, Alemanha, Rússia) possuem o capital para verticalizar completamente sua indústria. Para o Brasil, a saída não é a autarquia, mas pode ser, minimamente, uma Autonomia Seletiva e Transacional. Transacional, neste caso, tem um significado bem específico. Uma relação baseada no "toma lá, dá cá". É a diplomacia pragmática vista quase como um balcão de negócios. • Poder de Barganha: O Brasil pode utilizar sua segurança alimentar, matriz energética limpa e sua posição estratégica em minerais críticos como trunfo geopolítico fundamental. A “moeda de troca” nas negociações internacionais deve ser a transferência de tecnologias sensíveis para projetos estruturantes, como o PROSUB (desenvolvimento de submarinos), o SISFRON (monitoramento de fronteiras) e o adensamento da indústria aeroespacial brasileira, convertendo vantagens comparativas naturais em autonomia tecnológica e soberania de defesa • Soberania de Integração: Inspirado no modelo da Embraer e do Gripen, o foco deve ser dominar a Arquitetura de Sistemas. Não é necessário fabricar cada componente, mas é imperativo deter o código-fonte e a capacidade de integrar e modificar os sistemas de defesa em solo nacional. • Escala Regional: A viabilidade econômica da base industrial de defesa brasileira depende de liderar um ecossistema sul-americano, criando padrões comuns de equipamentos que garantam independência frente às restrições de exportação das grandes potências.
  6. Conclusão: A Nova Ordem Mundial, propositadamente fragmentada e desordenada, ora em gestação, não permite mais a neutralidade passiva. O sucesso de um projeto estratégico de Defesa não será mais medido apenas pelo poder de fogo, mas pela agilidade de um Estado em navegar um cenário onde a cooperação é a exceção e a competição — econômica, tecnológica e militar — tende a ser a regra. O Brasil poderá superar essa encruzilhada se conseguir converter sua força ambiental e agrícola em soberania tecnológica. Isso exige que a sinergia da Defesa seja muito mais intensa com as áreas da Economia e da Política, garantindo que, em um mundo de blocos fechados, o país permaneça como um nó essencial e independente na rede global de poder.
  7. Referências Bibliográficas - BREMMER, Ian. Every Nation for Itself: Winners and Losers in a G-Zero World. New York: Portfolio/Penguin, 2012. - FUKUYAMA, Francis. O Fim da História e o Último Homem. Rio de Janeiro: Rocco, 1992. - HOFFMAN, Frank G. Conflict in the 21st Century: The Rise of Hybrid Wars. Arlington: Potomac Institute for Policy Studies, 2007. - KAPLAN, Robert D. The Return of Marco Polo's World: War, Strategy, and American Interests in the Twenty-first Century. New York: Random House, 2018. - MEARSHEIMER, John J. The Tragedy of Great Power Politics. New York: W.W. Norton & Company, 2001. - NAÍM, Moisés. O Fim do Poder: Nas lutas entre Estados, empresas e seitas, quem manda já não manda como dantes. São Paulo: Leya, 2013. NYE, Joseph S. The Future of Power. New York: PublicAffairs, 2011. - SCHWAB, Klaus. A Quarta Revolução Industrial. São Paulo: Edipro, 2016.

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