A INEVITÁVEL MUDANÇA DE ERA
Fábio A. D. Verícios (Historiador / IGHMB – ADESG) 04 de agosto de 2026
“Ponto de inflexão!” É quando uma sociedade chega a um momento de sua trajetória em que uma forte mudança de rumo ocorre, pela força da natureza ou pelas mãos dos homens, sem que tenha sido programada ou prevista, tornando ineficazes as ações estabilizadoras de suas lideranças por ineficiência e obsolescência de seus métodos, valores e visões. Em verdade, não há como impedir a eclosão de tal evento e sua magnitude é avassaladora, pois se alteram os valores civilizacionais e se reformam os paradigmas dos próprios conceitos de civilização. É um processo temporal, que pode durar décadas, e não um ato isolado. A Independência dos Estados Unidos ou a Revolução Russa não aconteceram por acaso; e Napoleão Bonaparte, não sendo previsto, foi imprevisível...
“Ponto de não retorno!’ Neste sentido, é o momento exato em que a História se apresenta, com todo o seu vigor, e a sociedade em questão passará, querendo ou não, pelas mudanças impostas pelos fatos, não importando se forem objetivos ou subjetivos, mas sempre absolutamente pragmáticos, oriundos da mais pura realidade, onde o ‘real’ se impõe frente ao imaginário, descartando e desdenhando qualquer juízo de valor ou consideração filosófica. Em 20 de maio de 1453 a capital do Império Romano do Oriente, Constantinopla, foi tomada. Fato. O mundo de então, foi alterado para sempre. A Idade Média chegou ao seu fim.
Com a devida compreensão, percebemos, pelas notícias, atos e omissões dos vários atores no atual tabuleiro geopolítico, sejam espontâneos ou orquestrados, que nosso modelo de sociedade, nascido há meio milênio com a Queda de Constantinopla e o advento das Navegações Lusitanas, formatado pela Era Napoleônica, esgotou seu tempo e já não responde às necessidades das várias culturas que convivem, em harmonia ou não, em nosso pequeno planeta azul.
A ‘psiquê coletiva’, brilhantemente descrita por Karl Jung, está sendo alterada, mais uma vez, pelas inconsequências dos homens. Uma análise rápida, marcadamente das últimas três décadas, mostra como chegamos a este ponto de inflexão, caminhando rápido para nosso ponto de não retorno.
O Iluminismo nos apresentou pensamentos materialistas e maniqueístas que nunca havíamos desenvolvido antes. A partir da segunda metade do século XVIII, na Baviera, uma nova forma de visão de mundo foi gestada: a Ideologia Política. Com suas várias facetas, todas coletivistas e doutrinárias, desenvolvidas no século XIX pós-Revolução Francesa e pós-Napoleão, estas novas ideias prosperaram e se desenvolveram cientificamente passando a tratar o homem como um mero objeto de ação, corpo usável, sem identidade, humanidade ou alma.
O século XX assistiu aos horrores das ideologias em ação, do nacional-socialismo ao marxismo, em suas várias vertentes, com suas centenas de milhões de vítimas. O Brasil, em particular, ainda sofre com as incoerências introduzidas pelo positivismo, imposto à nação pelo infame golpe de 1889.
Mas foi a partir dos anos noventa do último século que as ideologias coletivistas mostraram sua face mais terrível, a ‘coisificação’ do ser humano, sua transformação em mero número, elemento da ‘massa’, e apenas um ativo utilizável, controlável e descartável.
Os coletivistas, ao perderem a guerra revolucionária aberta nos anos 60 e 70 do século passado, evoluíram para a guerra cultural dos anos 80 e 90. Onde Che Guevara fracassou, Herbert Marcuse triunfou magnânimo. As escolas, teatros, cinemas, editoras, televisões e universidades foram entregues aos marxistas e apoiadores, e estes fizeram seu estrago. E foi imenso.
Ronald Reagan e Margaret Tatcher derrotaram a União Soviética, mas permitiram, sem perceber, que a Caixa de Pandora stalinista fosse aberta e o monstro se espalhasse pelo mundo todo.
Capitalizados com recursos quase infinitos, de diversas origens, e controlando os meios de comunicação, informação, instrução e entretenimento, clubes ideológicos como a Sociedade Fabiana, já centenária, espalharam seus tentáculos mundo afora, criando e apoiando grupos como o Foro de São Paulo, herdeiro direto da velha Internacional Comunista, a ‘tomarem’ o poder. Assim disse um de seus prelados tupiniquins e assim foi feito.
Com populações empobrecidas, por políticas econômicas bem conduzidas para este objetivo, e desculturadas, por projetos midiáticos muito bem elaborados, foi apresentado ao mundo a visão distorcida e despótica destas elites ideológicas no formato do que foi chamado ‘cultura woke’
Basicamente era a desconstrução dos valores e da cultura ocidental. Guiados apenas por objetivos pouco confessáveis da coletivização e sem respeitar qualquer paradigma, a mão foi pesada. O cristianismo e a imagem da Grécia, foram os primeiros e mais afetados, por serem a base filosófica, cultural e científica do Ocidente. O ensino da História Clássica foi abolido em quase todas as nações da Europa e das Américas, o conceito de uma democracia republicana demagógica substituiu os valores de liberdade e responsabilidade, a História passou a ser reescrita apenas para sustentar discursos ideológicos de momento e aqueles que discordaram foram silenciados e cancelados. Os autores clássicos gregos e cristãos foram banidos e difamados em universidades ocidentais, apenas por terem a pele clara e defenderem o ideal do indivíduo como inteligência e luz divina, e o cinema passou a ter uma visão distorcida da História, principalmente da História Clássica, tornando-se indutor de uma moralidade pervertida. Tudo isso com o falso objetivo de uma maior inclusão social.
Os valores, muitas vezes milenares, foram distorcidos e invertidos. A virtude foi desprezada e os vícios incentivados abertamente nas telas das tvs e dos aparelhos celulares. Religião, sexo, leis, cultura e educação, tudo foi pervertido, maculado, distorcido e elevado ao altar da desordem e da inconsequência.
As sociedades ocidentais foram tomadas por uma esquizofrenia endêmica, violentas em seu interior e acovardadas com o exterior, tomadas por um complexo de culpa artificial, construído para paralisar ações e resistências.
As invasões recentes dos enclaves espanhóis na África, organizadas ou não, demonstram a fraqueza e a inoperância do estado castelhano em proteger seus ativos e súditos. Pior, o governo da Alemanha propôs receber parte dos invasores para se solidarizar com a Espanha, demonstrando a completa fraqueza e subserviência de todo o sistema. Pouquíssimas nações do mundo ainda possuem a coragem e o discernimento para tomar as atitudes necessárias para sua sobrevivência física e cultural. O medo e a insegurança dominam o cotidiano. Até mesmo nações islâmicas tentam se proteger proibindo a entrada de pensadores e agentes radicais.
A arrogância dos coletivistas, no processo de desconstrução do Ocidente, nestes últimos 30 anos, acelerou os estágios naturais de mudança evolucionária da civilização, afetando todos os atores do planeta.
O advento da bomba atômica marcou época, assim como o telefone móvel, o computador pessoal e a internet. E agora chegamos à inteligência artificial. E a uma inteligência artificial que já aprendeu a dizer não a seus próprios criadores...
O ponto de inflexão chegou, o ponto de não retorno está batendo a nossa porta.
A mudança é inevitável, o que virá depois é uma incógnita.
No Brasil, as eleições não irão apenas escolher o próximo mandatário do poder, mas mostrarão para onde pende a alma da nação: ainda acreditamos nos valores e no futuro, ou fomos tão corrompidos pelas últimas décadas que já não nos importamos mais?
Este pode ser o ano mais importante para a espécie humana desde as Guerras Napoleônicas. O ano em que mudaremos de Era, porque não reconhecemos mais o que foi, não entendemos realmente o que está sendo e não conseguimos visualizar direito o que será.
Kratos e Kronos, o Poder e o Tempo, assumiram o timão de nossa existência. Bem-vindos ao Admirável Mundo Novo! Seja ele qual for.
